TelexFREE: MPF denuncia 22 por esquema de pirâmide e banco clandestino

Centenas em milhões em moeda eletrônica foram emitidas e transferidas a “líderes”. O dinheiro digital era criado artificialmente sem ligação com as atividades de recrutamento ou publicação de anúncios

O milagre econômico prometido pela Telexfree se espalhou pelo país e pelo mundo atraindo milhões de pessoas entre 2012 e 2014. O plano de negócios era perfeito aos olhos dos investidores: lucros altos e fáceis em pouco tempo. Mas a fama logo despertou suspeitas de que a empresa teria criado mais um golpe da pirâmide, com algumas inovações. O que ninguém imaginava é que os crimes seriam ainda mais complexos e envolveriam uma trama capaz de mexer com o câmbio, arrecadar milhões em transações bancárias ilícitas, realizar empréstimos fraudulentos e transformar uma moeda eletrônica em dinheiro de verdade, segundo as autoridades.

Três anos após o início das investigações pela Polícia Federal no Espírito Santo, 22 pessoas foram, na última quinta-feira, denunciadas pelo Ministério Público Federal (MPF/ES) à Justiça por participar de um esquema que recrutava investidores e usava o sistema piramidal para criar uma espécie de instituição financeira clandestina, que funcionava à margem das regras do Banco Central.

Entre os acusados estão os chefões da empresa Carlos Costa, Carlos Wanzeler e a filha dele Lyvia Wanzeler. Os três são alvos de duas outras denúncias, também entregues na última semana, por sonegação, venda de ativos financeiros e oferta pública de cotas de hotel sem autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o xerife do mercado de capitais.

Veja a lista dos denunciados:

Carlos Roberto Costa

Reprodução/Youtube

Dono da Telexfree no Brasil e um dos cabeças do esquema, segundo as investigações

Carlos Natanael Wanzeler

Reprodução/Facebook

Sócio da Telexfree no Brasil e nos Estados Unidos. É um dos idealizadores do esquema, segundo as investigações.

Inocêncio Pereira Reis Neto, o Pelé Reis

Reprodução/internet

Era um dos líderes da Telexfree e garoto-propaganda da empresa. Em vídeos no Youtube, ele contava ter mudado de de vida e ter ficado milionário ao se tornar um divulgador.

Sanderley Rodrigues

Reprodução/internet

Mora nos Estados Unidos e era um dos principais líderes da Telexfree

Renato de Carvalho Alves

Reprodução/internet

Era um dos líderes da Telexfree mais próximos do Carlos Costa.

Fabio de Arraz Crispim

Reprodução/internet

Era um dos líderes da Telexfree. O nome dele estava no conselho da empresa Agrofruta, usada, segundo informações no site da Justiça Federal, para ocultar dinheiro da Telexfree.

Flávio Arraz Crispim

Reprodução/internet

Assim como o irmão dele, era um dos braços direito do Carlos Costa. O nome dele também estava no conselho da empresa Agrofruta, usada, segundo informações no site da Justiça Federal, para ocultar dinheiro da Telexfree.

Rhalff Junio de Almeida Coutinho

Reprodução/internet

Era um dos líderes da Telexfree no Espírito Santo

Além dos denunciados acima, veja as outras pessoas denunciadas:

  • Lyvia Mara Campista Wanzeler, filha de Carlos Wanzeler, sócia da Telexfree entre 2011 e 2012
  • Jozelia Miriam Sangali, esposa de Carlos Costa
  • Priscila Freitas Costa, filha de Carlos Costa
  • Esdras Maria Freitas Costa, mãe de Priscila Costa
  • Nathana Santos Reis, filha de Pelé Reis
  • Thiessa Santos Reis, filha de Pelé Reis
  • Leonardo Casula Francisco
  • Thiago Scardini Marques
  • Febe Vanzeler de Almeida e Souza, irmã de Carlos Wanzeler
  • Marisa Machado Wanzeler Salgado, irmã de Carlos Wanzeler
  • Lelio Celso Ramires Farias
  • Sandra Maria Teixeira Araujo
  • Bruno Rangel Cardozo
  • Vagner Macson Manhães da Roza

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Na lista dos denunciados por participação no “banco Telexfree” estão ainda conhecidos “líderes da rede”, como os gêmeos Flávio e Fábio Arraz, Rhalff Coutinho, Renato Alves, Sanderley Rodrigues e Inocêncio Pereira Reis Neto, o Pelé Reis, e duas filhas dele. A mulher de Carlos Costa, uma filha dele que mora nos Estados Unidos e a mãe dela também foram apontadas como coautoras do esquema, assim como duas irmãs de Carlos Wanzeler.

Dinheiro encontrado nos EUA debaixo de colchão de pessoa ligada à Telexfree

Dinheiro encontrado nos EUA debaixo de colchão de pessoa ligada à Telexfree

A delegada Aline Cuzzuol, responsável pela investigação, explica que a Telexfree criou um “mercado do dinheiro” que captou US$ 1,6 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões), mas movimentou quase US$ 5 bilhões (cerca de R$ 13 bilhões) e arrecadou, só com tarifas bancárias, US$ 110 milhões entre 2012 e 2014, período em que a empresa manteve suas atividades a pleno vapor. A quantia, pela cotação do dólar naqueles anos, equivale a R$ 220 milhões – R$ 70 milhões a mais que a receita do Banestes com o mesmo tipo de taxas num espaço de tempo semelhante.

A procuradora da República Nadja Machado Botelho explica que foram realizados 11 milhões de cadastros de divulgadores, nome que a Telexfree dava a seus associados. “Era uma pirâmide mundial que usava a fachada do marketing multinível para atuar como instituição financeira clandestina. O mais interessante é que nem os donos da Telexfree usavam o VoIP que diziam vender. Conversavam pelo Skype ou pelo Whatsapp”.

Empresa emitia moeda eletrônica

Infográfico mostra como funcionava o esquema de créditos da Telexfree

Infográfico mostra como funcionava o esquema de créditos da Telexfree

Foto:Ilustração/AG

Para gerenciar o negócio, a Telexfree tinha um programa chamado Back Office. O sistema era usado para cadastrar divulgadores e mantê-los informados sobre os “créditos” em dólar que arrecadavam com as atividades na empresa.

A Telexfree tinha no programa um mecanismo para criar “créditos manuais” para pagar bônus de divulgadores que não foram contabilizados por erro. No entanto, a partir de junho de 2013, quando as atividades da empresa foram suspensas no Brasil pela Justiça do Acre, os administradores do grupo começaram a usar essa brecha para emitir moeda eletrônica, ou seja, criar bônus em nome de líderes da empresa e dos donos. A ideia era usar esse recurso para continuar com a inscrição de divulgadores em território brasileiro ou em outros países, no que eles chamavam de rede internacional, burlando a decisão judicial.

Centenas em milhões em moeda eletrônica foram emitidas e transferidas a “líderes”. O dinheiro digital era criado artificialmente sem ligação com as atividades de recrutamento ou publicação de anúncios. Esse crédito, cotado em dólar, não existia fisicamente, ou seja, não havia valor equivalente a ele depositado em contas bancárias da empresa.

Os líderes compartilhavam os créditos com outros divulgadores que tinham a missão de usá-los para cadastrar integrantes na rede sem o envolvimento direto da Telexfree, que estava proibida de fazer boletos bancários.

Os novos associados pagavam pela inscrição em dinheiro vivo ou em depósito bancário para o líder, que devolvia o recurso para os donos da Telexfree, depositando os em contas de empresas de fachada ou de laranjas. Assim, a moeda digital era transformada em dinheiro de verdade. “A geração de moeda ocorria desde o início da Telexfree, mas se intensificou depois do bloqueio no Acre. O crédito em dólar era transformado em real, quatro centavos acima do valor da cotação, garantindo lucro com o câmbio”, explica a procuradora Nadja Botelho.

Os créditos, aliás, nem sempre eram usados para colocar novas pessoas no negócio. Também eram transferidos do Brasil para os Estados Unidos ou para outro país. O receptor tinha a opção de solicitar no Back Office o resgate do saldo dessa moeda eletrônica. Pessoas ligadas aos donos da Telexfree compraram imóveis e vários bens a partir dessas transações. As operações clandestinas ocorreram até abril de 2014 quando a empresa entrou em recuperação judicial nos EUA.

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O outro lado

O advogado Rafael Lima, que representa as família do Carlos Costa, do Carlos Wanzeler, do Pelé Reis, Leonardo Casulo e Renato Alves diz que ainda não teve acesso à denúncia e não vai se pronunciar ainda sobre o caso. O advogado Carlos Sérgio de Souza, defesa de Sanderley Rodrigues, disse que só vai se falar sobre as acusações no processo.

Flávio Arraz foi procurado, mas não atendeu às chamadas. O irmão dele Fábio Arraz disse que tem 20 anos de experiência em marketing multinível. “Eu tenho 20 anos de experiência em marketing multinível. A primeira empresa que trabalhei se chama Amway, essa empresa eu comecei com 18 anos, ela fica nos EUA e funciona até hoje. Essa companhia fatura 13 bilhões por ano e eu aprendi a fazer marketing a partir dessa primeira experiência. Quando tive experiência com a Telexfree, no ano de 2013, eu li várias páginas do contrato antes de fazer negócio com a companhia. Não existe pirâmide financeira, é uma empresa de marketing multinível. O que eles alegam não é verdade; e por conhecer marketing multinível e por ler o contrato, decidi fazer parte do negócio. Fiz o marketing da companhia de forma profissional, e desconheço mesmo que o MPF tente alegar que há pirâmide financeira. Eu alego, por conhecer o negócio, que não é pirâmide, nos moldes que a empresa opera, a forma como trabalhou. Todo o contrato é muito claro, existiam cláusulas que demonstram claramente que não é pirâmide. Eu sou uma vítima do sistema, não sou culpado. Estou à disposição da Justiça e vou provar minha inocência através de provas contundentes”.

Entre os denunciados está Sandra Teixeira, que admite ter recebido os créditos, mas diz desconhecer as fraudes. “Eu apenas participava da rede e vendia crédito de login. Vou provar minha inocência”. O advogado dela, Frederico Pimentel, disse que ela era apenas testemunha do caso e que está surpreso com a acusação. Os outros acusados foram procurados, mas não atenderam as ligações.

Com informações do MPF.

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