TelexFREE: Empresa tinha ‘banco clandestino’ para operar esquema, denuncia MPF-ES

O milagre econômico prometido pela Telexfree era perfeito aos olhos dos investidores: lucros altos e fáceis em pouco tempo. Mas a fama logo despertou suspeitas de que a empresa teria criado mais um golpe da pirâmide, com algumas inovações. O que ninguém imaginava é que os crimes seriam ainda mais complexos e envolveriam uma trama capaz de mexer com o câmbio, arrecadar milhões em transações bancárias ilícitas, realizar empréstimos fraudulentos e transformar uma moeda eletrônica em dinheiro de verdade, segundo as autoridades.

Três anos após o início das investigações pela Polícia Federal no Espírito Santo, 22 pessoas foram, na quinta-feira (2), denunciadas pelo Ministério Público Federal (MPF/ES) à Justiça por participar de um esquema que recrutava investidores e usava o sistema piramidal para criar uma espécie de instituição financeira clandestina, que funcionava à margem das regras do Banco Central.

Entre os acusados estão os chefes da empresa Carlos Costa, Carlos Wanzeler, e a filha dele, Lyvia Wanzeler. Os três são alvos de duas outras denúncias, também entregues na última semana, por sonegação, venda de ativos financeiros e oferta pública de cotas de hotel sem autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Na lista dos denunciados por participação no “banco Telexfree” estão ainda conhecidos “líderes da rede”, como os gêmeos Flávio e Fábio Arraz, Rhalff Coutinho, Renato Alves, Sanderley Rodrigues e Inocêncio Pereira Reis Neto, o Pelé Reis, e duas filhas dele.

A mulher de Carlos Costa, uma filha dele que mora nos Estados Unidos, e a mãe dela também foram apontadas como coautoras do esquema, assim como duas irmãs de Carlos Wanzeler.

A delegada Aline Cuzzuol, responsável pela investigação, explica que a Telexfree criou um “mercado do dinheiro” que captou US$ 1,6 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões), mas movimentou quase US$ 5 bilhões (cerca de R$ 13 bilhões) e arrecadou, só com tarifas bancárias, US$ 110 milhões entre 2012 e 2014, período em que a empresa manteve suas atividades a pleno vapor. A quantia, pela cotação do dólar naqueles anos, equivale a R$ 220 milhões – R$ 70 milhões a mais que a receita do Banestes com o mesmo tipo de taxas num espaço de tempo semelhante.

A procuradora da República Nadja Machado Botelho explica que foram realizados 11 milhões de cadastros de divulgadores, nome que a Telexfree dava a seus associados.

“Era uma pirâmide mundial que usava a fachada do marketing multinível para atuar como instituição financeira clandestina. O mais interessante é que nem os donos da Telexfree usavam o VoIP que diziam vender. Conversavam pelo Skype ou pelo Whatsapp”, disse.

Esquema da Telexfree emitia moeda financeira (Foto: Arte/ A Gazeta)Esquema da Telexfree emitia moeda financeira (Foto: Arte/ A Gazeta)

Para gerenciar o negócio, a Telexfree tinha um programa chamado Back Office. O sistema era usado para cadastrar divulgadores e mantê-los informados sobre os “créditos” em dólar que arrecadavam com as atividades na empresa.

A Telexfree tinha no programa um mecanismo para criar “créditos manuais” para pagar bônus de divulgadores que não foram contabilizados por erro. No entanto, a partir de junho de 2013, quando as atividades da empresa foram suspensas no Brasil pela Justiça do Acre, os administradores do grupo começaram a usar essa brecha para emitir moeda eletrônica, ou seja, criar bônus em nome de líderes da empresa e dos donos.

A ideia era usar esse recurso para continuar com a inscrição de divulgadores em território brasileiro ou em outros países, no que eles chamavam de rede internacional, burlando a decisão judicial.
Centenas de milhões em moeda eletrônica foram emitidas e transferidas a “líderes”. O dinheiro digital era criado artificialmente sem ligação com as atividades de recrutamento ou publicação de anúncios. Esse crédito, cotado em dólar, não existia fisicamente, ou seja, não havia valor equivalente a ele depositado em contas bancárias da empresa.

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Os líderes compartilhavam os créditos com outros divulgadores que tinham a missão de usá-los para cadastrar integrantes na rede sem o envolvimento direto da Telexfree, que estava proibida de fazer boletos bancários.

Os novos associados pagavam pela inscrição em dinheiro vivo ou em depósito bancário para o líder, que devolvia o recurso para os donos da Telexfree, depositando os em contas de empresas de fachada ou de laranjas. Assim, a moeda digital era transformada em dinheiro de verdade.

“A geração de moeda ocorria desde o início da Telexfree, mas se intensificou depois do bloqueio no Acre. O crédito em dólar era transformado em real, quatro centavos acima do valor da cotação, garantindo lucro com o câmbio”, explica a procuradora Nadja Botelho.

Os créditos, aliás, nem sempre eram usados para colocar novas pessoas no negócio. Também eram transferidos do Brasil para os Estados Unidos ou para outro país. O receptor tinha a opção de solicitar no Back Office o resgate do saldo dessa moeda eletrônica.

Pessoas ligadas aos donos da Telexfree compraram imóveis e vários bens a partir dessas transações. As operações clandestinas ocorreram até abril de 2014 quando a empresa entrou em recuperação judicial nos EUA.

O outro lado
O advogado Rafael Lima, que representa as família do Carlos Costa, do Carlos Wanzeler, do Pelé Reis, Leonardo Casulo e Renato Alves diz que ainda não teve acesso à denúncia e não vai se pronunciar ainda sobre o caso. O advogado Carlos Sérgio de Souza, defesa de Sanderley Rodrigues, disse que só vai se falar sobre as acusações no processo.

Flávio Arraz foi procurado, mas não atendeu às chamadas. O irmão dele, Fábio Arraz, disse que tem 20 anos de experiência em marketing multinível.

“A primeira empresa em que trabalhei se chama Amway. Essa empresa eu comecei com 18 anos, ela fica nos EUA e funciona até hoje. Essa companhia fatura 13 bilhões por ano e eu aprendi a fazer marketing a partir dessa primeira experiência. Quando tive experiência com a Telexfree, no ano de 2013, eu li várias páginas do contrato antes de fazer negócio com a companhia. Não existe pirâmide financeira, é uma empresa de marketing multinível. O que eles alegam não é verdade; e por conhecer marketing multinível e por ler o contrato, decidi fazer parte do negócio”, DISSE.

Segundo ele, cláusulas no contrato da Telexfree mostram que o negócio não é uma pirâmide financeira.

“Fiz o marketing da companhia de forma profissional, e desconheço mesmo que o MPF tente alegar que há pirâmide financeira. Eu alego, por conhecer o negócio, que não é pirâmide, nos moldes que a empresa opera, a forma como trabalhou. Todo o contrato é muito claro, existiam cláusulas que demonstram claramente que não é pirâmide. Eu sou uma vítima do sistema, não sou culpado. Estou à disposição da Justiça e vou provar minha inocência através de provas contundentes”, acrescentou.

Entre os denunciados está Sandra Teixeira, que admite ter recebido os créditos, mas diz desconhecer as fraudes. “Eu apenas participava da rede e vendia crédito de login. Vou provar minha inocência”. O advogado dela, Frederico Pimentel, disse que ela era apenas testemunha do caso e que está surpreso com a acusação.

Os outros acusados foram procurados pela reportagem de A Gazeta, mas não atenderam as ligações.

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As informações são do G1 ES.

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